|
Raça, segundo o etnólogo Francisco Fernandes significa linhagem, estirpe, geração, conjunto de ascendentes e descendentes originários de um mesmo povo ou de uma mesma família. No sentido figurado significa classe ou grupo de pessoas que tem a mesma profissão ou as mesmas tendências. Raça significa também casta, espécie e laia. Pode significar ainda raça humana, humanidade, além de enfatizar adjetivos como boa raça, referindo-se a um cavalo de raça, por exemplo.
Segundo Aurélio Buarque de Holanda, resumidamente, raça é um conjunto de indivíduos cujos caracteres somáticos são semelhantes e se transmitem por hereditariedade.
E o que vem a ser racismo? Segundo o mesmo Aurélio é a DOUTRINA que sustenta a superioridade de certas raças. Analisem a palavra DOUTRINA.
Qual o impacto do racismo aos povos indígenas e à população negra?
As discussões sobre Ações Afirmativas, popularmente chamadas de cotas políticas, quando direcionadas para mulheres, por exemplo, tem sido mais compreensível e aceitável para a opinião pública.
Mas quando envolve essa palavra condenada, essa palavra mágica, essa palavra dúbia que toda a sociedade brasileira preferiria que ela não existisse no dicionário, porque ela faz parte de nossa educação, de nossa cultura, então parece que a cegueira mental aumenta o seu teor. A palavra raça está comprometidamente envolvida com a palavra PODER.
A "suposta universalidade humana branca e ocidental" convencionou a sua superioridade e poder através das armas e canhões; da cruz e da espada; e do monopólio da informação e aparatos bélicos de última geração contra diferentes raças, diferentes povos, castas, etnias, povos indígenas no oriente e no Ocidente.... Sofrer discriminação e racismo significa sofrer humilhações cotidianas que geram tensão, ansiedade, alcoolismo, distúrbios mentais, medos, dúvidas e uma auto-estima infinitamente baixa. O tráfico negreiro trouxe para a América cerca de 11.5 milhões de africanos, a maioria para o Brasil, apenas por esse motivo "extremamente simples chamado desenvolvimento da Europa e da América", mas desenvolvimento para quem já era rico e branco !!!!! Um desenvolvimento bastante tendencioso!!! Com relação aos povos indígenas de 1500 a 1630 dois milhões de índios guaranis das bacias dos Rios Paraná, Paraguai e Uruguai foram mortos ou escravizados.
Como vemos, raça é uma questão que envolve POLÍTICA, PODER, CENTRALIZAÇÃO, VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E NENHUMA SITUAÇÃO DIPLOMÁTICA.
A propaganda e a mídia são mecanismos extremamente importantes para conscientização da população brasileira. O que acontece? Nós, dos movimentos sociais, cometemos muitas vezes o erro de colocar a carroça antes dos bois. Por outro lado, estamos esmagados pelas Campanhas que surgem do nada ou do tudo e temos que acompanhá-las e se não acompanhamos perdemos o bonde da história. É como a moda. Refiro-me a temas da maior importância para nós, povos oprimidos. Eu me lembro perfeitamente há anos atrás, que para receber financiamento de instituições internacionais e posso dar como exemplo à "Campanha dos 500 anos de colonização européia" na América Latina, em 1992, devíamos incluir esse tema nos projetos. Outro exemplo era a questão de gênero. As bases indígenas não sabiam nada sobre isso, e nem sabíamos se isso existia mesmo entre nós. Mais uma vez, as Instituições, os instrumentos internacionais exigiam das Ongs brasileiras que se incluíssem a questão de gênero, depois paulatinamente, foi a questão de raça/etnia e assim sucessivamente. As Nações Unidas definiam temas, como Meio-ambiente, por exemplo, como aborto, como discriminação racial, racismo, xenofobia etc... E nós da cúpula dos movimentos sociais e políticos impregnávamos nossas bandeiras com esses marktings políticos, porque acreditávamos e ainda acreditamos altamente legítimos, porque sofremos diariamente a exclusão social. Teoricamente todas essas ações são extremamente válidas. Mas nossas bases reivindicam ações mais imediatas como a demarcação das terras indígenas, por exemplo. As revoluções na Guiné Bissau, em Moçambique, na Argélia, na África enfim, assim como no Brasil, na Europa surgiram de um movimento político de elite, assim como os temas propostos pela Onu, pelas Instituições financiadoras e Ongs.
No entanto, a massa, a opinião pública, apesar de receptora da má qualidade de vida, de testemunha das arbitrariedades políticas e sociais, de vítima da violência urbana, rural como os despossuídos, os descamisados, os sem-terra, os sem-teto, os povos indígenas, a população racificada brasileira, os deficientes físicos, os homossexuais, as mulheres, os trabalhadores rurais, todos esses segmentos estavam como estão alguns ainda, anestesiados, sem opinião própria por medo, desconhecimento, por baixa auto-estima, por vergonha, por intimidação, por medo de perder o que conseguiram, como empregos, status quo, etc... ou uma razão muito forte_ encantados_ como um encantamento do tipo "democracia racial". Urge que estudemos outros tipos de "encantamentos" para que possamos, numa política de educação de massa, DESMISTIFICAR E DESMITIFICAR esses aspectos subliminares em nossas mentes, porque afinal o racismo está dentro de nós, o inimigo interno é muito forte em nossos cérebros e o perpetuamos diariamente em nossas ações. É como a mulher perpetuar o machismo em sua casa, obrigando a menina a cuidar dos afazeres domésticos enquanto o menino joga bola e brinca nas ruas, ganhando conhecimentos. Isso acontece cotidianamente no seio da população brasileira, por mais modernos que já estejam as mães e pais.
Por outro lado o golpe militar, a abertura política, as diretas já, o impeachement de Collor de Melo, a votação de FH para presidente e a vitória de Lula ainda não foram suficientes para despojar o ranço de preconceitos impregnados no povo e tão pouco suficiente para organizar a massa num grande movimento político. A desarticulação política ainda existe motivada pelos altos e baixos momentos históricos, apesar de algumas vitórias.
Voltando ao tema das grandes Campanhas.... como num passe de mágica, a máquina que rege a luta pelos direitos humanos, quer de uma hora para outra, um nível de compreensão perfeito e apurado sobre questões ainda invisíveis, indefiníveis que permanecem reforçadas pela colonização do passado e pelo imperialismo de hoje, refletidas no consumismo, no falso poder, no estereótipo neocolonialista imposto e nas desmotivações políticas e históricas.
É o que vem acontecendo com a discussão sobre as chamadas Ações Afirmativas, referindo-me especificamente a cotas para estudantes negros e indígenas, que muita gente ainda não conseguiu compreender. Nós, do movimento social, fazemos uma leitura compreensível, rápida, eloqüente porque estamos dentro dos movimentos sociais, em luta e prontidão contra a violação aos direitos humanos. Mas a opinião pública, a massa é lenta ainda porque sofre grandes campanhas subliminares do passado, como por exemplo e repetindo, o mito da democracia racial, a projeção de estereótipos ocidentais. E se cria então chavões como "No Brasil não há racismo". E agora os/as negro/as pobres estão sendo taxados de racistas, após várias entrevistas na mídia. De vítimas passam a oportunistas. Mas isso se dá, também, porque começam a incomodar, pois quando o oprimido está invisível em seu status quo, em seu habitat natural e paupérrimo, ali permanecerá invizibilizado. Essa situação é cômoda para quem discrimina. Mas quando ele busca um espaço mais digno, como a Universidade por exemplo, ele já passa a ser inconveniente. Muitos estudiosos não vêem com bons olhos os intelectuais indígenas. Já os consideram aculturados, alvos de críticas, sujeitos à manipulação e alvos de intrigas para diluí-los entre as lideranças comunitárias. É o que eu ouço diariamente e a confusão está instalada. Isso tudo é intolerância.
Mas porque será que nós do movimento social colocamos a carroça antes dos bois???? Porque se criam Campanhas e depois não se cumprem ? Porque não há recursos financeiros, recursos humanos e acaba tudo no papel. Não há continuidade. Geralmente essas grandes Campanhas atingem somente à minoria da população. Por isso as críticas. Muito marketing para pouco resultado concreto. Então o povo desacredita, se desestimula e políticos perdem a moral e o desenvolvimento real do povo não avança.
Nós, dos movimentos sociais, mesmo assim estamos fazendo o correto. Nossa postura é nos colocar no lugar ético, moral e político dos afrodescendentes, indígenas, testemunhos daqueles que sofreram a dor da lesa humanidade.
A escravidão e o tráfico de escravos foram os tema mais polêmicos em Durban. O conceito de Ações Afirmativas vem desde a década de 60 e foi amadurecido em outras Conferências como a IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em 1995 e a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação, Xenofobia e Intolerância Correlata em 2001 e está presente na Convenção Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial.
As Ações Afirmativas são políticas públicas compensatórias e temporais para promover igualdade dos grupos vulneráveis. Num futuro não serão mais preciso essas ações, pois atingiremos à democracia racial verdadeiramente real. Elas existem para combater desigualdades sociais e podem se ampliar para vários setores como: saúde, educação, habitação, eletricidade, água potável, meio-ambiente, igualdade e oportunidade de emprego, além de atingir aos serviços judiciários, executivos, reformas eleitorais, reforma agrária. Para isso é imprescindível um organismo de peso para implementar essa política e que tenha orçamento próprio, autonomia, recursos humanos altamente capacitados, campanhas de massa na mídia de conscientização do povo, para que não caia no descrédito e na crítica infundada e irresponsável, que prejudicam e distorcem os reais objetivos da luta contra desigualdade social e racial. As Universidades deram o passo inicial, a Puc de Minas Gerais, a UERJ no Rio de Janeiro. Já existem Universidades indígenas.
Finalizando, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) denunciou que existem cerca de 502.000 crianças, a maioria negra, trabalhando como empregadas domésticas, algumas delas tinha 05 anos quando começaram a trabalhar. A população indigente no Brasil é de 22 milhões, dos quais 15.4 milhões são negros e pardos. Nesses pardos estão incluídos os indígenas desaldeados.
Invisíveis são as mulheres indígenas que parcerizaram sexualmente com pobres nordestinos que foram, no passado, trabalhar nos seringais da Amazônia, desestruturando suas vidas e culturas, constituindo hoje a população amazônica. Invisíveis são as mulheres indígenas que pelo racismo ambiental precisam exilar-se e serem empurradas para os grandes centros urbanos como Manaus, Belém, S.Luis, Recife etc... para servirem de mão-de-obra barata ou gratuita. Invisíveis são nossos ancestrais que são objetos do racismo institucional e quando surgem na mídia são alvo de chacotas. Invisíveis são nossas mães e avós indígenas que até hoje esperam justiça. Por todos esses motivos, as Ações Afirmativas, no mínimo, ainda não pagam o sangue derramado neste país, apesar de grandes iniciativas, mas a luta continua. |