RECONSTRUINDO GÊNERO NA QUESTÃO INDÍGENA
© Eliane Potiguara

Nos primórdios da civilização, quando o homem ainda era macaco, quando a coleta ainda era a sua primeira forma de sobrevivência, como a coleta das frutas, dos peixes etc... a competição existia como um ato inerente pela sobrevivência. A competição, na realidade é nada mais que a exploração do homem pelo homem, isto é, quem tem mais bens, mais poder, mais informação, tem poder sobre o outro. Na transição do macaco para o homem, a inteligência e o trabalho foram crescentes e sendo assim, foi notável as relações entre os mesmos originando a predominância do escravagismo e da propriedade privada. Nos dias de hoje, essa inteligência está cada vez mais aprimorada.Tanto lá no passado como aqui, percebe-se a relação de poder, a relação capitalista, no seu sentido mais primitivo. Isso é cultura arraigada. Refletindo em termos sócio-políticos, a cultura do dominador é a exploração, a destruição do "chamado ser inferior"; e a cultura do explorado é a submissão, o oprimido, até que se mude essa relação. 
Em termos individuais, referindo-se à mente humana, o inconsciente coletivo manifesta-se também numa relação de poder, isto é, num único ser humano existem várias personalidades ou identidades construtivas e destrutivas ao mesmo tempo. O ser humano luta consigo mesmo, porque culturalmente desde os primórdios da civilização a dualidade, a competição existem como fruto de uma necessidade de sobrevivência e isso é uma herança histórica até hoje e conseqüentemente política. 
Espontaneamente, a força destrutiva quer predominar, é a que quer deter o poder sozinho contra tudo e contra todos e até contra a natureza. E a força construtiva da mente humana é a que quer libertar-se, desenvolver-se, mas vive o condicionamento da prisão, da opressão, do egoísmo. É a destruição contra o desenvolvimento humano. É a guerra contra a paz. É O PREDADOR NATURAL lutando contra a harmonia. É o positivo contra o negativo. É O chamado SUPERIOR CONTRA O chamado INFERIOR.Tudo isso dá uma imensa conotação de sofrimento humano, daí as dúvidas que existem dentro de nós, e que às vezes, não sabemos o que queremos, sentimos as inseguranças, percebemos as múltiplas vontades e personalidades.Somos o predador e o oprimido ao mesmo tempo, daí o conflito que existe dentro de todos os seres humanos. Assim também o é nas relações sociais e conseqüentemente entre os homens e as mulheres. 
Neste último ano, fazendo um estudo sobre a filosofia de Clarissa Pinkola Estés em seu livro "Mulheres que correm com os lobos" encontrei parte das respostas que estava fazendo há muitos anos em minha vida, como uma pessoa de origem indígena, mulher, de família extremamente pobre e imigrante dos territórios indígenas por ação violenta da neocolonização algodoeira nordestina, vitimada pelo racismo ambiental e o racismo às próprias mulheres que serviam de objeto sexual para os colonos. E num momento de maior êxtase de minha vida e inspirada nessa pensadora feminina, a escritora Clarissa de múltiplas identidades e cidadanias, inclusive a indígena, escrevi o texto abaixo: 
PELE DE FOCA 
"A luz se abriu e a minha pele de foca voltou a se umedecer.
Minha pele estava seca pelas vicissitudes da vida. Eu mergulhei nas profundezas dos
mares e reencontrei com minha avó-foca, com minhas sagradas ancestrais e os velhos guerreiros que também não se envergonhavam por suas lágrimas.
Elas_ sabiamente_ me contestaram e me mostraram que eu, inconsciente e pacificamente, aceitava os padrões éticos impostos pela intolerância da sociedade , e voltei com minha alma fortalecida, voltei com meus
sonhos definidos, voltei com minha intuição extremamente clara, precisa,
determinada. Minhas costelas não estão mais descarnadas, a carne voltou a
crescer depois que os homens derramaram suas lágrimas pelas mulheres do mundo e eu não sou mais uma mulher esqueleto, jogada ao fundo do mar, como se fôra um sapato velho, pela cultura impostora.Sou uma mulher de fibra, porque eu me
reconstruí por mim mesma, depois de dançar desvairadamente na vida com meu iludido
sapatinho vermelho colonial.Quase perdi os meus pés, as ervas daninhas enrolaram neles pra que nunca mais caminhasse pelas estradas do saber, da consciência e do mais alto grau da espiritualidade indígena, mas pude dominá-los e arrancar
esses malditos sapatinhos vermelhos das chamadas "MULHERES E MÃES BOAS-DEMAIS"!!!!!! que
por serem assim, vivem sufocadas pelo peso da história e da opressão e quando vislumbram uma "semiliberdade", uma ilusão, a pseudoliberdade, se perdem
nos terríveis sapatinhos vermelhos da cultura falsamente iluminada, que escamoteia o poder, o preconceito, o racismo. Meu ego , não pode ser mais forte que minha alma.Minha alma é ancestral, meu ego não pode dominar minha verdadeira história. Faço agora um acordo entre meu ego e minha alma. Minha alma é primeira , é forte
é intuitiva;ela é ética, pra não dizer pura, minha alma é terna, eterna
amante, indígena. Mas meu ego, condicionado pela cultura dominante, me leva para a escuridão terrena, celestial, marítima,onírica e filosófica. Conduz minha auto-estima para os porões. Não mulheres do mundo! Não aceitemos mais. Não, não, não, não, não! Meu ego não pode ser mais forte
que minha alma, meu ânima, minha essência de mulher selvagem, indígena, essencial à preservação digna do planeta e dos seres humanos. Basta de violência. Nós somos lobas. Somos músicas que ecoam no etéreo.
Nós somos focas. Nós somos Humanidade e sabemos o que é digno pra nós. Nossa pele de foca brilha de novo.Ouçamos definitivamente nossas velhas e velhos". 
A partir desse texto "Pele de Foca" chamo a atenção de todas as mulheres e homens. E como esse antagonismo ego e alma foi minimizado entre povos indígenas através de sua cosmovisão? Quando nos apercebemos da luta que existe entre o ego e a alma, é que devemos lucidamente fazer uma viagem ao inconsciente coletivo em busca das nossas raízes étnicas, raciais, espirituais para fortalecer o eu interior. As histórias de nossas e nossos ancestrais são referenciais riquíssimos para esse fortalecimento interno. 
A mulher que ouve a sua intuição, que percebe os seu sonhos, que ouve a voz interior das velhas e das mulheres guerreiras de sua ancestralidade e que possui o olhar suspeito dos desconfiados, essa sim, é uma ameaça ao predador natural da história e da cultura. Por isso o predador tem medo dela quando ela percebe a violência de seu algoz. 
Para dominar esse predador que está dentro dela, e fora dela na sua cultura, ela precisa tomar posse de seu instinto selvagem, de seus poderes intuitivos, de seu ser resistente, ser guerreira, ser questionadora, ter insight, ter tenacidade e personalidade no amor que procura, ter percepção aguçada, ter audição apurada, ouvir os cantos dos mortos, ter sensibilidade, ter alcance de visão, cuidar de seu fogo criativo, ter espiritualidade, mesmo que para tudo isso ela sofra, ela sangre, ela trema, ela se rasgue e grite ou que vá ao fundo do poço do sofrimento humano para renascer mais bela !!!!! É UMA LUTA DELA CONTRA ELA MESMA. O predador natural da história faz com que ela se sinta ESGOTADA, mas mesmo assim ela vence, se quiser vencer. Ela renascida fará renascer também seus descendentes, inclusive os masculinos. 
Essa filosofia de vida nada mais é que uma estratégia natural da cultura indígena. O povo indígena sobrevive há séculos de opressão porque tem como MAIOR REFERENCIAL a tocha da ancestralidade, do perceber intuitivo, da leitura e da percepção dos sonhos, do exercício da dança como expressão máxima da espiritualidade e da valorização da cultura, das tradições, da cosmovisão personificadas na figura dos velhos e das velhas. Sua percepção é aguçada como a de uma águia ou de um condor, sua percepção de visão é como o olhar de uma sábia coruja, sua audição é tão nobre, mágica e perspicaz como a surdez de uma cobra. E assim por diante. 
Quando se comunga com as águias, no caso dos indígenas Norte-Americanos ou com o condor na América do Sul, se comunga com a força interior dessas aves que trazem no olhar o fogo da quintaessência, trazem no olhar a força da alma. Seus olhos traduzem-se nas janelas da intuição. Os xamãs, os pajés, os líderes espirituais masculinos e femininos aperceberam-se dessa energia vital e comungam com essa energia em suas vidas, repassando essa força para seu povo. Por isso o povo indígena guarda uma cosmovisão refletida em seus mistérios, histórias que demonstram a ética, a cultura da paz, o conservador nato da ecologia da natureza e da vida, o amor profundo e o respeito às crianças e às mulheres. Lendo então, a escritora Clarissa, percebi que ela enfocou aspectos da tradição indígena no papel do fortalecimento das mulheres do mundo. 
Povos indígenas exerceram relações de gênero no passado de forma justa, quando as mulheres guarani, por exemplo eram ouvidas nas Assembléias indígenas. Há mais de 20 anos eu tenho dito em todas as assembléias, Conferências por onde passo, que as mulheres indígenas tinham o seu papel político extremamente determinado e forte. A palavra final, numa Assembléia Indígena no século XVII era a da mulher. Os homens desesperados pelo processo de colonização e racismo, ao verem suas mulheres estupradas pelo europeu, decidiam o suicídio coletivo com a palavra final da mulher. Os povos que permaneceram vivos, introduziam-se pelas matas e temerosos, colocavam as mulheres, crianças e velhos na "retaguarda cultural". Foram séculos e, até hoje esse temor indígena sobrevive no universo masculino, pois o neocolonialismo existiu assim como existe a nova ordem mundial e a globalização. De uma certa forma o homem, obrigatoriamente, assumiu um papel machista para a defesa de sua família. No contato com o colonizador, adquiriu os vícios estrangeiros. Hoje os povos indígenas trazem marcas dessa colonização e da neocolonização também imposta, por isso , precisamos reconstruir gênero entre povos indígenas. 
Voltando a questão da essência, por que povos indígenas emergentes, ressurgidos, descendentes ou quilombolas reacendem sua identidade étnica após diversos massacres culturais, religiosos ou políticos? Porque seu inconsciente coletivo, isto é, SUA ALMA, SUA ESSÊNCIA, grita mais forte que seu ego. Sua alma é atrelada aos ancestrais, à sua história pseudo- esquecida. Essa história é como uma mina em terreno proibido. A qualquer hora, um movimento mínimo, mina como um fio d'água e explode como um oceano. Não dá para calar, por isso a tradição do povo guerreiro. 
É o que está acontecendo ultimamente em muitas áreas brasileiras, onde povos dessa natureza pipocam translucidamente, como é o caso dos Pitiguary, no Ceará, ressurgido na década passada e o caso mais recente dos Catókinn no interir de Alagoas ou com índios-descendentes em casos individuais. Tem sido um desafio para esses povos e para o movimento esse "reconhecimento" como indígena, dada a intolerância de uma antropologia institucional, oficial que ainda não assimilou a dinâmica do combate à discriminação racial, a xenofobia e todas as formas correlatas de intolerância tão bem discutida na última Conferência das Nações Unidas, na África do Sul, no ano de 2001, onde a participação brasileira foi muito marcante em número e posição. 
Povos indígenas, povos ressurgidos, emergentes, índio-descendentes, índios desaldeados, "deplazados" e imigrantes não podem ficar à mercê de análises antropológicas burguesas, insensíveis e intolerantes de governos racistas e autoritários!!!!As almas dessas pessoas devem ser respeitadas porque têm história de seus antepassados. Tem a história das mulheres decididas. 
Temos discutido muito também a questão da imigração indígena, motivada por violação aos direitos humanos dos povos indígenas e os efeitos aterrorizantes a esses povos, às pessoas individualmente falando, às mulheres e às crianças que são as mais afetadas. As histórias dessas mulheres indígenas empurradas para o lixo da sociedade nas grandes cidades como Manaus, Belém, Fortaleza, Boa-vista, Recife e demais cidades não podem ficar invisíveis como ainda estão. 
A formação de gênero entre povos indígenas deve ser uma estratégia para promover a justiça de gênero dentro das organizações indígenas para a defesa das mulheres aldeadas e as que vivem na periferia, em casas de palafitas na Amazônia ou as que vivem nas favelas nas grandes cidades, servindo de mão-de-obra quase escrava na sociedade discriminatória . 
Finalizando, reafirmo que 300 milhões de povos indígenas no mundo inteiro estão em estado de alerta na defesa de sua identidade, participando de fóruns nacionais , internacionais, participando do Forun Permanente para Povos Indígenas uma vitória nossa no Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas que trabalhou 20 anos para a constituição da Declaração Universal dos Direitos Indígenas. 
Defendendo a identidade, defendendo as raízes culturais, as etnias, as raças, o gênero, o ser humano terá uma melhor qualidade de vida e sua passagem pelo planeta terra terá realmente uma razão de ser. 
É com a mulher que o homem aprende. É com a mãe terra, é com o ventre vulcânico revolucionário, guerreiro, combativo que trará a transformação do ser humano contra a exploração do homem pelo homem e por conseguinte a transformação dos sistemas políticos, sociais e econômicos. Assim, homens e mulheres, democraticamente, poderão estar no topo do mundo e as relações de gênero no planeta terra serão mais socializadas e sem temores e o amor será mais puro, natural, respeitoso, amigável, construtivo, definido. Nunca, em tempo algum desde a criação do mundo, com o estabelecimento do primeiro ser pensante que evoluiu do macaco para o homem, as relações de gênero, de raça, classe, castas, as relações sócio-político-econômicas foram democráticas porque o inimigo interno do inconsciente humano( A FORÇA NEGATIVA CONTRA A NATUREZA) sempre venceu na batalha do superior contra o inferior. A revolução começa dentro de casa. Mulheres indígenas criem suas organizações sob seus tetos sagrados e deixem os homens de suas famílias aprenderem com as guerreiras que vivem em nós. 

 

 

 

 

 

 

 

 

         

   

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