VISÃO INDÍGENA E INTOLERÂNCIA
© Eliane Potiguara

A humanidade buscou sem resultados, por séculos e séculos, os vários deuses fora de si mesma, inclusive aquele sentado no universo e governando o mundo. A humanidade criou diversas filosofias, dogmas, "juízos de valor" sobre essas criações. Mas aquele que compreendeu que Deus está dentro de si mesmo e que todo ser humano é um deus em ação, responsável por cada ação boa ou má que pratica, esse sim, está mais próximo da verdadeira tolerância, do respeito pela opinião e do respeito pela percepção sobre as escolhas que seu próximo possa ter e, aceitá-las. Imagens, cerimônias, mitologias, liturgias, símbolos, representações culturais inclusive são conseqüências das criações e do inconsciente coletivo, não fazem mal a ninguém.O que faz mal é a pretensão de querer ser melhor que os outros ou ser o dono da razão, quando existe uma grande diversidade de pensamentos entre a humanidade. Isso tem causada as guerras as guerras.E o melhor caminho para a reflexão sobre culturas, ideologias e outros temas é a concentração, o estudo, a experiência e a compreensão.Quando concentramos nossa mente se ilumina. Brota o respeito.Ela se transforma numa estrela e os que estão no escuro, na ignorância e na teimosia tentam dilapidar essa luz.
Precisamos encontrar na prática a unidade na diversidade a partir da observação e concentração.


A força do universo a que muitas pessoas falam quando se referem e identificam Deus, nada mais é que a força da gravidade que rege as chuvas, as cachoeiras, as marés, as torrentes, as lavas dos vulcões, as águas dos rios. ASSIM É NOSSO PENSAMENTO INDÍGENA. O caminhar constante e certeiro dos planetas e das estrelas que giram em torno deles é a grande força magnética que rege o universo.O nascer e o morrer dos entes vivos é o ciclo natural da vida, para que a alma se fortaleça. Seres humanos estão conectados a essa gravidade e magnetismo da Terra, respectivamente. Se estamos conectados com toda essa força por questão da Física e se somos Deus em ação, então somos UM. Todos os seres da natureza possuem um alma e por isso são reverenciados e há o que a sociedade chama de mitos, que para nós, são as nossas próprias histórias, tanto de Criação do mundo, quanto da formação do caráter das crianças e jovens. As nossas histórias definem o comportamento do homem e mulher na sociedade indígena.Elas são contadas pelos mais velhos e pelos lábios espirituais dos ancestrais!

O planeta inteiro fala em um mundo mais justo, em paz e amor ao próximo, mas a justiça começa dentro de nós, quando todos procuram-na do lado de fora. A evolução e re-volução devem começar dentro do indivíduo, porque Deus já deve estar dentro de nós.

O pensar mal e o falar mal dos outros é um dos piores defeitos quando o indivíduo não utiliza a autocrítica. Isso é intolerância e começa assim mesmo, de forma simples, um e outro falando mal do próximo. É a emissão do juízo de valor.O monstro começa a crescer dessa forma até chegar a ponto de violência em que estamos vivendo, nas cidades e nos campos, nos países ocidentais e orientais. É A PRÓPRIA GUERRA, interior ou exterior, local ou global, nacional ou internacional.A riqueza material de uns é a pobreza de outros. A má qualidade de vida dos seres humanos resulta das relações do poder econômico e político implantados nos Estados.

A má qualidade de vida destrói as próprias vidas. A natureza destrói a vida de quem não tem qualidade de vida, porque suas vidas não têm segurança, saneamentos, pilares altamente fortalecidos para impedir a força brutal na natureza, quando ela vem. Por acaso, a força da natureza destrói os palácios, as igrejas douradas, as mansões, os castelos empedrados? Ou destrói as humildes casinhas e pastos dos despossuídos? Não é Deus que destrói, é a intolerância que não une os seres viventes para uma melhor qualidade de vida.Quem destrói é o fundamentalismo econômico e social que impinge o estado de miséria e pobreza.

O autoconhecimento passa pela observação/concentração a si mesmo e à natureza envolvente, o autoconhecimento passa pela autocrítica.Quando se faz uma análise de comportamento se começa por si mesmo, e não por teorias complexas, tratados sociais, teorias políticas ou teses. Olhar para si mesmo é ser um analista político altamente nato. Se conseguir analisar-se bem, saberá desenvolver uma magnífica consideração teórica, seja um erudito ou um analfabeto. Será um brilhante sociólogo ou comentarista popular.
Concentrar-se em si: este é o lema, mas veja bem, não é um egoísmo sobre si mesmo. É um concentrar analítico, com sabedoria e paciência de determinados velhos e velhas, que se capacitaram através dos séculos, pela observação e concentração, seja em qualquer cultura, sendo que tal característica é mais presente nas culturas ancestrais e indígenas. Por isso o velho pajé observa e se cala, para depois agir pacificamente pelo bem étnico. 

A intolerância de qualquer natureza é a responsável pelas discriminações sociais, econômicas, políticas e raciais. A intolerância intergrupal, a chamada intolerância ou subordinação interseccional é o racismo cultural, que também bloqueia o crescimento da humanidade, porque ele está aflorado dentro das famílias, dentro das casas, até entre irmãos de sangue, ou entre o homem ou mulher, retratando as desigualdades de gênero, incluindo a questão do homossexualismo.A inveja intergrupal, interpessoal que destitui um conhecimento, para ali se alocar uma ignorância prepotente, atrasa o processo de amadurecimento das mentes. A intolerância intersecccional é a pior categoria, ao meu ver, pois divide as lutas e atrasa o processo histórico de libertação e enfraquece o grupo comunal.Enfraquece toda uma luta, que muitas vezes estaria à beira da vitória. E o inimigo, o poder maior, joga com as intolerâncias intergrupais: as picuinhas, as divergências e as ganâncias.

A "intolerância maior" sempre foi mais fácil de se identificar.Está claro para todos. É o racismo dos nazi-fascistas contra judeus, dos brancos contra negros, dos brancos contra indígenas. São as intolerâncias religiosas e das grandes potências que matam, discriminam, violentam, causam guerras. Sobre essas intolerâncias as pessoas dizem que isso não tem nada a ver com elas. Por isso considero a maior injustiça, as intolerâncias interseccionais. São aquelas que estão conosco no nosso dia a dia, enraizada, porque a "intolerância menor" está entranhada nos corações, nos olhares de ciúmes, nas pequenas competições e assim, o self selvagem, o deus que somos_, pois o temos dentro de nós_ se enfraquece. Os indivíduos não querem se separar dessas intolerâncias por comodismo, por inconsciência, conivência ou insensatez. Sempre são os outros. Sempre os outros. Nós não enxergamos a nossa própria intolerância. A culpa está sempre nos outros, não é assim, durante séculos e séculos? Somos intolerantes dentro de um grupo, e nosso/as comparsas sentem vergonha de denunciar um fato e o máximo que fazem é apenas espernear, revidar ou aceitar a submissão. É assim que a "intolerância maior" enfraquece os seres humanos.O homem e a mulher oprimidos enfraquecem seu Deus interno. Assim, seu Deus que já está fora de seu interior, sentado num trono no Olimpo, distante de si mesmo se enfraquece, e o indivíduo luta para alcançá-lo, almejá-lo, quando ele mesmo já o possuía, quando ele cultivava a força interior. Deus está distante, e o ser humano se sente um aniquilado, assim como na história de uma mulher indígena que levou um tiro do marido no olho, ficou cega desse olho e preferiu calar-se, para esconder o erro do homem na sociedade maior, como vi num documento recente.Isso é subordinação intersecccional, uma exceção na questão indígena.

Que possamos enxergar as nossas próprias intolerâncias, sermos UM_ Deus e o indivíduo. Assim estaremos mais fortalecidos para a luta maior: a luta contra a discriminação social, religiosa e racial no mundo inteiro 

*Eliane Potiguara é escritora e professora, 57 anos, Presidente da REDE GRUMIN DE MULHERES, conselheira do Inbrapi (Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual).Coordena o Grumin/Rede de Comunicação Indígena.Visite o site http//:www.elianepotiguara.org.br 

Autora do livro "METADE CARA, METADE MÁSCARA" editora Global, Série Visões Indígenas, coordenada por Daniel Munduruku, escritor indígena.

 

 

 

 

 

 

 

         

   

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